domingo, 2 de novembro de 2014

Fisioterapia

Mais uma semana acabando, ou outra começando dependendo do ponto de vista que você tem, no Brasil em geral encaramos o domingo como o último dia da semana, já aqui na Itália esse dia é sinal de uma nova semana. Mas não é sobre o calendário que eu vim discutir aqui com vocês, e sim sobre meus últimos dias atendendo no hospital de Siena, e sobre todos os ganhos que tive, e também sobre meu novo amor.

Faz 3 semanas que comecei um estágio, onde desses 21 dias 14 eu passei na area da neurocirurgia, uma parte muito delicada do hospital como vocês podem imaginar, e eu estava cheia de receio, interrogações que já tinham sido levantadas no Brasil, e que eu esperava que desaparecessem aqui... Dúvida em relação a carreira que tinha escolhido, dúvida em relação ao tipo de profissional que eu gostaria de ser, e dúvida se estaria pronta para tudo isso... 
Então foram iniciados os trabalhos, e com o passar dos dias os presentes começaram a chegar, e acho que seria interessante eu contabilizar e fazer uma retrospectiva de tudo que me foi dado: eu ganhei mais de dez vovós, senhoras que diziam que queriam que eu fosse sua neta, senhoras que me chamavam de neta, senhoras que achavam realmente que eu era sua neta... Ganhei crianças de mais de 30 anos, e com os corações mais puros que já vi, ganhei  sorrisos e abraços de mães e pais zelosos, que estudaram tanto sobre o problema dos filhos que com certeza davam um banho de conhecimento em muitos médicos, ganhei o carinho de irmãos, esposas, amigos e filhos, ganhei inúmeras famílias que a cada bom dia me acolhiam e me faziam sentir parte daquilo tudo, sem contar as declarações de amor e pedidos de casamentos de belos e sensuais italianos acima de 80 anos que gritavam para o hospital inteiro ouvir "Malú amore mio" e como recusar tanto amor? Fui presenteada com uma bíblia de uma família que eu nem sequer atendia, na verdade aquela senhora era apenas colega de quarto de uma outra paciente que eu fazia atendimento, e ela chegou e disse "Lembra sempre, tu pode estar longe da tua família, mas nunca longe de Deus". Existe uma senhora em especial que me afeiçoei demais, ela me contou sua vida, era aquele tipo de vovó que não importa a hora do dia, ela vai estar sempre com um batom e com o cabelo super bem arrumado, ela havia vencido um concurso de beleza quando tinha minha idade, foi declarada a moça mais bonita de Siena, e cá entre nós, pra mim ela continua sendo a mais linda. Ela quem me deu o meu primeiro abraço aqui, em um dia não muito bom, quando achei que não ia conseguir tirar ela da cama, ela levantou e então demos as mãos e caminhamos por todo o corredor, e quando voltamos ela me abraçou, e naquele momento aquilo foi um abraço de Deus (créditos a Gi, minha amiga que também está em intercâmbio mas na Alemanha, obrigada pela frase Giovana). 
Cada vez que eu pegava na mão de algum paciente e era retribuída com um sorriso, ou apenas um aperto mais forte, aquilo fazia meu coração aquecer, e cada vez que eu saia de um quarto eu deseja secretamente que eu nunca perca o hábito de falar tocando no paciente, sorrindo para ele, e ouvindo ele, pois não importa onde esteja, Brasil, Itália ou China, não existe em nenhum  lugar do mundo uma pessoa doente que não vá gostar de alguém que lhe dê a mão e que lhe olhe nos olhos... De frio já basta o quarto que estão, já basta a vida que estão levando, cabe a nós profissionais da area da saúde esquentar por alguns momentos a vida deles, e isso só com o toque, com o sorriso sincero e com o olho no olho, que a gente nunca olhe a doença que deixa aquela pessoa no leito, e sim a pessoa que está ali.


E assim eu estou indo para mais uma semana de trabalhos no hospital, percebendo que recebi muito mais do que dei, aliás nem sei ao certo o que fiz para ter tido tanto carinho, nenhuma daquelas pessoas vai ler isso, mas de alguma forma cada uma delas me deu uma pecinha de um quebra cabeça, cada individuo foi respondendo as minhas dúvidas, e foi completando lacunas que existiam em mim, e no final eu que fui reabilitada, eu achei meu amor, meu novo amor, hoje sou apaixonada de corpo e alma pela minha profissão, sou feliz por poder dizer que estudo FISIOTERAPIA, que devolvo as pessoas um motivo pra seguir em frente, não escolhi a fisioterapia e quem conhece a minha história sabe que realmente eu não escolhi, que cai por acidente do destino no curso, o acidente mais bonito que podia ter acontecido, fui escolhida pela fisioterapia, e por ela quero fazer mais.
Deixo vocês com esse texto que foi meu coração que ditou, até a próxima pessoal...
Beijos, da garota que está na Itália!

Um comentário:

  1. Oi querida! meu nome é Francisco, também estudo fisioterapia! Aqui no Brasil, descobri há pouco tempo que possuo cidadania italiana!!
    Você está graduando direto na italia?
    Pretendo terminar aqui e depois viajar, queria saber sobre o processo de validação, você tem algum material sobre isso pra me indicar? abraçoooo

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Ebaa, comentário novo!! Assim que possível eu lhe respondo! Beijos e pizzas ;)